A noite havia acabado e um outro dia começado. A virada da noite anterior havia sido esplêndida. Rever os amigos que não via a muitos, perder o ar de tanto rir, gritar, cantar, abraçar, relembrar histórias, comer, comer muito, bagunçar como se ninguém se importasse com a idade que se tem, porque na realidade, nenhum dos que estavam presentes se importava. Ora, nunca haviam se importado com a idade que tinham. Eram crianças em corpos adultos. Mais infantis do que recém nascidos, e quem se importava ?
Eles sabiam que muitos falavam de seus comportamentos, muitos os invejavam por saber viver tão intensamente, alguns os achavam desnecessários e outros ainda queriam ser como eles eram. Eles não ligavam, queriam apenas poder ter histórias para contar, motivos para sorrir e dos quais se lembrariam pro resto de suas vidas. Queriam poder dizer que sim, eles foram felizes enquanto estiveram juntos e embora houvessem raros desentendimentos nada era maior do que amor que sentiam uns pelos outros. Era uma amizade incontrolável. Diferente de qualquer uma que tivesse sido citada na história das amizades. Já ouviu dizer de amigos que se tratam carinhosamente mal, mas essa é a demonstração de carinho de um pelo outro? Bem, eles eram mil vezes pior. Eram agressivos, criativos para novos meio de importunar uns aos outros, se xingavam como se fossem inimigos mortais; mas apenas eles que vivenciavam tudo poderiam dizer, que na verdade era uma amizade incomparável, estranha, escandalosa, espontânea, acima de qualquer coisa, verdadeira. Ninguém negaria ao dizer que aquela amizade havia sido intensa e verdadeira.
E poderiam surgir outros amigos, novos confidentes, mas nenhum seria como aqueles. Aquele grupo pequeno-grande de amigos era forte, imbatível, ninguém destruiria e mesmo que o tempo e a rotina que cada um seguia fossem diferentes, embora cada um tivesse seguido seu caminho para lados distintos, embora as horas corridas do relógio não permitissem que se vissem constantemente, embora alguns tivessem se afastado, sabiam que no final se encontrariam novamente, sempre conseguiam.
E o tempo passou, eles cresceram - de corpo e em conhecimento -, afinal, alguns já estavam quase em seu segundo ano na universidade e alguns logo entrariam em uma. É, o tempo havia passado, mas nada impedia que aquelas pessoas que foram um dia no colegial pudessem reviver quando se vissem. Isso sempre acontecia. Podiam estar dirigindo, serem profissionais sérios e bem conceituados, viver suas vidas, mas sempre que se encontrassem, esqueceriam de tudo e voltariam a ser os mesmos estudantes do terceiro colegial, daquela escola estadual e que marcou a vida de cada um, de uma forma ou de outra, durante muito, muito tempo.
E como já dizia Shakespeare, “Amigos são a família que nos permitiram escolher”. E eles jamais esqueceriam de tudo que viveram juntos e seriam para sempre aquela família criada, mesmo que as coisas mudassem um pouco.
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